Wilders

28, ago 2020 .

A animação é fundamental para a imersão nos nossos jogos

A animação é fundamental para a imersão nos nossos jogos

by Vivi Werneck

11 min read

Jason Tadeu, Animador 3D na Wildlife, acredita que o trabalho de animação ajuda a contar histórias e enriquece a narrativa de jogos.


 

Chegamos a um patamar de evolução da indústria do entretenimento em que é quase impossível falar em produção de qualquer conteúdo para cinema e TV sem mencionar a animação 3D. No mercado de jogos, animar, ou seja, “dar vida” a personagens e cenários de forma envolvente é fundamental para garantir a imersão do jogador. “A animação entra para contar a história, juntamente com os demais elementos do game”, explica Jason Tadeu.

Jason, que está há pouco mais de um ano como Animador 3D na Wildlife, é um veterano no mercado de animação do Brasil e começou bem cedo, com apenas 16 anos, num estágio de ilustração no estúdio de uma antiga professora. Além de ilustrador e animador (2D e 3D), o profissional também é professor e cineasta tendo trabalhado, inclusive, ao lado de vencedores do Oscar no setor. Nos próximos parágrafos, você vai conhecer a sua história.

INÍCIO DIFÍCIL, MAS GRANDES CONQUISTAS

Jason cresceu na zona norte de São Paulo e desde menino sempre gostou de desenhar. Na infância, ao saber de um curso técnico de arte em um colégio da região, não pensou duas vezes. “Eu pensava que como técnico eu poderia me inserir no mercado. Então cursei Comunicação Visual, no Carlos de Campos e tive meu primeiro contato com muitas técnicas de desenho, pintura, aulas de história da arte, modelo vivo e por aí vai.”

Um dia, durante este curso, ele estava ajudando um amigo na criação de um personagem, e chamou a atenção da sua professora, que tinha um estúdio. Foi assim que, aos 16 anos, ele recebeu um convite para seu primeiro estágio como ilustrador.

Depois desse período, Jason foi convidado a trabalhar com fotografia digital e retoque de imagens na Birô Filmes até que chegou uma oportunidade na Briquet Filmes, uma das mais antigas produtoras de comerciais para TV de São Paulo, onde atuou na parte de cenários. “Comecei lá com o 2D e fazia assistência de animação. Na Briquet Filmes comecei no final de 1997 e fiquei até 1999. Isso trabalhando apenas com animação 2D. Fiz muitos trabalhos nesta produtora. Inclusive, é até mais fácil contar os trabalhos dos quais não participei”, brinca.

Na área de animação 2D, Jason deu muita assistência especialmente em publicidade para TV.

“O mercado de animadores no Brasil tem uma base muito forte na publicidade. Quando comecei, no final de 1997, não tínhamos muitos outros produtos para trabalhar. Hoje já é outra realidade.”

O animador conta que era guiado pelas produções de fora, de Hollywood, que é espelho para todo o mundo. "Você tinha que olhar as coisas que aconteciam lá e tinha que reproduzir no Brasil em menos tempo e com menos recursos.”

Saindo da Briquet Filmes, em 1999, Jason migrou para a Vetor Zero, onde ficou até 2012. Lá, ele afirma ter evoluído muito e foi onde se tornou, verdadeiramente, um animador. Foi nesse período que ele se desenvolveu muito no processo de planejamento de animação, para "produzir de forma mais eficiente e errando menos".

Por conta das limitações tecnológicas no setor de animação brasileiro, e a falta de acesso a informações na década de 90, Jason e outros artistas decidiram adotar uma nova forma de apresentar seus projetos.

“Eu e um grupo de artistas, participamos do processo para mudar a forma como projetos eram apresentados no mercado. Percebemos que nosso método era mais ágil e assertivo e isso reverberou em outras produtoras também.”

Em outras palavras, Jason apresentaram um planejamento de animação que mostrava o filme completo para as produtoras, e não apenas o animatic. "Este era até um processo bem comum lá fora, mas não tínhamos essa ponte para cá, não tínhamos esse diálogo.” Jason também conta que ele implementou esse processo pela primeira vez quando ainda trabalhava como animador 2D por volta do ano 2000, na Vetor Zero.

Sua transição para o 3D também aconteceu na mesma produtora. “Resolvi conhecer essa outra ferramenta porque sentia que estava perdendo alguma coisa e eu precisava me atualizar." Já como animador 3D, ele começou a atuar mais em layout – aplicando o processo de planejamento assertivo criado e que já havia implementado na produção, quando trabalhava em 2D. "A gente se preocupava em como poderia melhorar a qualidade do trabalho, porque quase sempre tínhamos muito pouco tempo, era bem corrido", conta.

DOS ESTÚDIOS PARA AS SALAS DE AULA E O CINEMA DE ANIMAÇÃO

Após quase 14 anos na Vetor Zero havia chegado o momento de Jason buscar novos ares. Em 2012, ele recebeu um convite para lecionar na Axis, uma filial brasileira da Gnomon VFX, escola de animação, efeitos especiais e games, com matriz em Los Angeles (EUA). Mas antes de começar a dar aulas, Jason também voltou à sala de aula e se formou em Cinema.

"Peguei toda essa bagagem para poder dar aula nesse braço da Gnomon VFX aqui. Fui professor, por 1 ano, de cinema de animação tradicional e animação 2D. Daí, nesse período, fui chamado para participar de um projeto da O2 Filmes chamado Que monstro te mordeu?, com o Cao Hamburger [criador do Castelo Rá-Tim-Bum].”

UMA INFINIDADE DE PROJETOS

Como a vida de animador é movida a projetos, em paralelo ao seu trabalho na O2 Filmes, Jason também era freelancer remoto em produções na Rússia e Nova York. "Era quase tudo ao mesmo tempo", lembra.

Com o passar dos anos, o mercado brasileiro de animação começou a mudar e antes o que era quase que exclusivamente território da publicidade, agora havia dado lugar também à produção de conteúdo (filmes, séries e desenhos). Era muita animação para entregar.

“Para se ter uma ideia, em média, um animador sênior consegue produzir em uma semana, correndo muito, de 10 a 15 segundos de animação. Quando fui para a O2, a demanda era muito grande e tinha que entregar minutos de animação por semana.”


Mais uma vez, a organização e planejamento de processos foram essenciais para o atual animador 3D da Wildlife não surtar, naquela época. “Como eu já vinha com essa coisa de planejamento, de pensar o tipo de estratégia e de como poderíamos tirar o melhor com o tempo que tínhamos, eu fui supervisor de animação nesse projeto da O2.” No novo papel, Jason trabalhou em produções com o diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e Ricardo Laganaro, especialista em efeitos especiais. Ele conta que conheceu também outros profissionais incríveis por lá.

"Depois da O2, o processo de entrega de animações ressoou bem, e eu fui convidado a participar de um outro projeto na Mono Animation. Lá, a demanda era maior do que a dos estúdios que eu já havia trabalhado, e de novo, com muito trabalho e planejamento, tudo correu bem."

Jason também fez seu próprio curta-metragem, Cuco. O filme conta a história de um homem saindo da sua zona de conforto, entrou para o Festival de Cannes (França) e também participou do principal festival de curtas de São Paulo. E não foi só isso – a animação de Jason também debutou num festival de cinema italiano e no Anima Mundi. Nada mal, né?

CUCO_FEST (1)DO BRASIL PARA O MUNDO – AO INFINITO E ALÉM

Sempre buscando se aperfeiçoar, Jason saiu da O2 rumo ao Canadá, onde trabalhou na Babel Entertainment por um ano. “Minha cabeça se abriu de uma forma como nunca antes. É uma outra visão de mercado, mais madura”, conta. “Cheguei a estar num projeto com 62 animadores só no meu time. Eu falava para os amigos brasileiros que havia mais animadores comigo do que no Brasil inteiro.”

Após o período no Canadá, Jason recebeu uma proposta de trabalho numa produtora de Hollywood (Califórnia, EUA), a Magnopus, dos CEOs Alex Henning e Ben Grossman. Ambos ganharam o Oscar, em 2012, pelo filme Hugo.

"Fiquei dois anos em Hollywood e voltei ao Brasil, com minha esposa e filho pequeno. Já de volta a São Paulo, eu precisava voltar a trabalhar e reorganizar minha vida", conta. "Foi aí que fui indicado por um amigo para a Wildlife, em 2019."

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ANIMAÇÃO PARA GAMES: UMA NOVA NARRATIVA

A primeira experiência de Jason com animação para games foi com a Wildlife, mais precisamente com a Top Free Games. “Durante meu período como professor fiz um freelancer para a então TFG, em 2013. Na época, trabalhei no jogo Chicken Run, foi um projeto de três meses.”

Jason explica que trabalhar animação para games é uma demanda diferente. Neste caso, é necessário trabalhar com ciclos, os chamados "idles", e a partir daí juntar um ao outro para o conjunto fazer sentido.

“O que me chamou a atenção neste trabalho foi ele ser mais uma opção de produto. Quando se é animador no Brasil, você precisa ver em qual mercado pode atuar. Tem publicidade, tem conteúdo e, agora eu tinha mais um... games!”

Atualmente, Jason trabalha no time de Marketing Art da Wildlife, atuando na divulgação dos games da casa. Ele explica que a animação 3D para jogos tem uma estética bem diferente.

“Quando cheguei, eu estava entendendo ainda como funciona Marketing Art. As pessoas ainda estão entendendo esse processo. Isso que a Wildlife está fazendo é algo muito novo, até para outras produtoras", ele conta.

“Sinto que a Wildlife está na frente fazendo Marketing Art, ao montar toda essa estrutura. A empresa está a passos à frente de muitas outras produtoras de games, nesse sentido.”


A ideia do Marketing Art, como explica Jason, é trabalhar elementos específicos do jogo de forma a encantar e incentivar o jogador a baixar o game. “Fazemos mini comerciais, de 15 a 25 segundos, desenvolvendo formas de destacar personagens e estimular emoções para chamar a atenção do jogador.”

A animação 3D nos jogos está longe de ser apenas um simples recurso de “embelezamento virtual”. O animador precisa saber contar a história do game com movimentos, trabalhando em conjunto com os produtores de som, game designers e roteiristas.

“No Zooba, por exemplo, cada personagem tem sua característica. Se a gente não mostra essas personalidades, não contamos a história. Porque no final, você joga em cima disso”, comenta. “A animação entra aí para contar essa historinha juntamente com os demais elementos do game. O cinema de animação é fundamental para juntar essas questões interativas.”

QUERO TRABALHAR COM ANIMAÇÃO. POR ONDE COMEÇAR?

Jason explica que, hoje em dia, há muitos caminhos - especialmente em relação à época que começou. “A gente precisa se esforçar. Hoje há a facilidade de quando surge um programa novo já ter um curso online, por exemplo. Na minha época não tinha, era na base dos livros mesmo”, relembra. “Você precisa se perguntar: o que quer fazer? Qual o seu recurso disponível? Do que você já dispõe de conhecimento?”

Para fechar, o animador 3D aconselha que aspirantes não se deixem levar pelo mar de opções dentro da carreira. “Não tente fazer tudo ao mesmo tempo. Foque em algo, inicialmente, e se especialize nisso!”

A boa notícia é que trabalhar duro realmente dá frutos, e a história de Jason é prova disso.


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