Wildlife

3, mai 2021 . 7 min read

Ser artista é trabalhar com uma fome inesgotável de conhecimento

Ser artista é trabalhar com uma fome inesgotável de conhecimento

by Juliana Protásio

7 min read

Tayllan Soares, Motion Designer 2D na Wildlife, conta como é ganhar a vida aprendendo todos os dias sobre aquilo que mais ama.

Fotógrafo de festa, fazedor de sofá, Motion Designer. Com apenas 26 anos, Tayllan Soares parece já ter vivido muitas vidas em uma só. Sua trajetória pouco usual combina elementos de sonho, perseverança, alto nível de foco e uma dose de solidariedade. Até chegar à Wildlife e conquistar o poder de dar vida a personagens na área de roll-out, uma das mais importantes para geração de receita da empresa.

Tayllan entrou para o mundo do trabalho bem cedo, aos 12 anos, auxiliando a mãe, que trabalhava como diarista. Nessa época, eles moravam em uma comunidade no Centro de São Paulo. Estudante de escola pública, desde criança ele tinha interesse pela área artística, chegou a fazer aulas básicas de desenho livre e gostava de copiar personagens de quadrinhos e desenhos animados. “Fui descobrindo que gostava de desenhar e também tinha talento. Mas os custos dos cursos de arte são muito altos, então acabei aprendendo muita coisa por conta própria”, recorda.

Na 8ª série, um professor de artes oferece aulas focadas em fotografia e despertou o potencial do aluno dedicado. No ano seguinte, foi a vez do cinema. Ao concluir o ensino médio, Tayllan juntou economias e comprou uma câmera para trabalhar como fotógrafo, registrando festas e eventos. Até então, seguir uma carreira artística era um sonho distante, já que a realidade exigia um trabalho que pudesse contribuir com as contas em casa.

Diante disso, Tayllan fez um curso profissionalizante e chegou a trabalhar como aprendiz em uma loja de móveis, mas quando seria efetivado, desistiu da vaga porque os horários iriam inviabilizar a continuação de seus estudos. Assim, ele acabou indo trabalhar em uma tapeçaria, onde começou apenas tirando grampos de móveis para reforma, mas logo procurou evoluir e aprendeu a confeccionar sofás, que viria a ser seu ofício por sete anos. “Em qualquer trabalho não me rendo, dou o meu melhor”.

QUANDO ALGUÉM ESTENDE A MÃO

Até que, em 2019, uma amiga próxima que integrava o time de artistas da Wildlife perguntou se ele teria interesse em uma vaga. "Conversar com ela reativou meu interesse e foi como me tirar do abismo, porque até então eu achava que ia morrer fazendo sofá. Só que eu não tinha computador, nem conhecimento, nem experiência para pensar em ter uma chance”, revela.

Mais do que o incentivo, a amiga apresentou Tayllan ao AfterEffects, um dos principais e mais conhecidos softwares para quem trabalha com motion. Ela também emprestou o computador, ensinou o básico do programa e ainda deu acesso a um curso online para que ele pudesse se aprofundar. “Eu havia tirado férias e só fiz estudar. Era dia e noite dissecando a ferramenta”, ele conta que foram 15 dias de estudo intensivo, que terminaram com um mini-portfólio com quatro projetos.

Tayllan Soares_Junior Motion Designer

Depois desse mergulho no motion, Tayllan foi para uma entrevista despretensiosa na Wildlife e, ao mostrar seu portfólio, havia uma mostra de tudo que ele precisava para assumir a vaga. A proposta veio na hora e ele ainda não conseguia assimilar o que havia se passado. “É uma ficha que, pouco mais de um ano depois, ainda não caiu direito. Fazer parte da Wildlife é sonhar acordado”. 

Tudo isso se deu no dia em que ele iria voltar a trabalhar na tapeçaria. “Era só ir lá e dizer que passei numa entrevista, que ia seguir o meu sonho e com o dobro do salário. Mas fiquei com medo de chatear o patrão e acabei trabalhando o dia todo”, conta sorrindo. 

“Lembro de como foi emocionante fazer o meu primeiro walking cycle. Sempre quis dar vida a um personagem, agora estou aprendendo e trabalhando com isso”.

Nessa somatória, Tayllan ainda nem previa o adicional incalculável do aprendizado. E sua sede de conhecimento só cresce. Além de tudo que absorve na prática do dia a dia, ele investe em cursos, segue estudando por conta própria, está sempre de olho no próximo passo. “Gosto muito de motion, mas quero migrar para o 3D. Tenho facilidade de aprender coisas novas e não me contento em ficar no mesmo lugar”.

Entre as coisas que admira na Wildlife, o fato do time ser formado por profissionais em início de carreira, mas altamente comprometidos, é para ele uma fonte de estímulo inesgotável. “Ainda que sejam jovens, são pessoas que sabem o que querem, têm muitas aspirações e convicções. Além de uma fome de conhecimento que alimenta a minha fome também”.

CADA HACKATHON É UM SALTO 

Tayllan atua numa área que tem um grande volume de entregas - são 800 filmes a cada semana. Mas o projeto que mais marcou até o momento foi o hackathon em que entregou o Zooba Sailor Moon, que unia animação 3D e 2D, que envolvem diferentes particularidades técnicas. 

Os hackathons ocorrem a cada três ou quatro meses e são célebres na Wildlife, com quatro dias intensos de realização, superação e ganho de experiência sem precedentes para os jovens talentos da empresa. Os colaboradores são organizados em equipes para executar projetos do início ao fim, cujo resultado vencedor pode vir a ter um roll out. 

Para Tayllan, esse trabalho condensado tem um papel muito importante para descobrir como otimizar os processos produtivos. “Ao juntar vários artistas diferentes, todo mundo troca conhecimento. Além disso, como temos que fazer tudo muito rápido, precisamos priorizar a organização e solucionar problemas com agilidade”, explica.

O animador não esquece como foi tenso e complexo, mas a recompensa veio ao exibir o filme para os colegas. “Ainda não era quarentena, então foi um encontro presencial. Quando o projeto foi para a tela, todo mundo fazendo barulho, batendo palma, foi surreal!”.

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Antes de mesmo ser um Wilder, Tayllan era consumidor dos produtos da empresa, pois sua relação com jogos mobile vem antes mesmo dos de console. "Sniper 3D foi o primeiro jogo de tiro bem feito que eu vi e joguei muito. O Zooba também, e nem sabia que eram da Wild. Eu já gostava de videogames, mas só tive meu primeiro console com mais de 18 anos”. Hoje, por dentro da indústria, ele encara os jogos com o olhar técnico para os detalhes, imaginando o tanto de trabalho e tempo que levaram para a construção de cada elemento.

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA

Ao entrar para o time da Wildlife, Tayllan conta que foi bem recebido, mas estranhou a falta de pessoas pretas na empresa. “Todo mundo foi acolhedor, os colegas logo aprenderam seu nome, mas levei uns três dias no escritório sem ver uma cara parecida com a minha e isso me deixou apreensivo. Até que finalmente conheci o Jason Tadeu, um artista incrível, com quem quero muito trabalhar e poder absorver todo conhecimento que ele tem acumulado”. Foi sua primeira referência no time.

E por falar em heróis, quando se trata de personagens favoritos e inspiradores, a resposta vem na ponta da língua: Pantera Negra e Super Choque. “Os dois me moldaram, têm muitos aspectos dessas histórias que se parecem com a minha. Já fui fantasiado de Super Choque numa festa de Halloween, agora tenho até os dreads para fazer de novo”.

Tayllan acredita que a área de arte em jogos é disputada e exige uma capacitação técnica avançada, o que ainda dificulta o acesso para muitas pessoas por uma questão sócio-econômica. “Aí que você vê que a representatividade é, sim, importante. Até para quem está de fora e enxerga uma possibilidade de entrar, ver como possibilidade fazer parte desse mundo”.

 


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